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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Cacá Diegues fala sobre o projeto "5 x Favela"

Começaram no último dia 29 as filmagens do projeto Cinco vezes favela, agora por nós mesmos. Idealizado pelo cineasta Cacá Diegues, o projeto é inspirado no longa-metragem Cinco Vezes Favela, de 1961, um dos marcos inaugurais do Cinema Novo Brasileiro, no qual Diegues dividiu a direção com Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges.
Na entrevista concedida a Luciano Vidigal, Cacá fala um pouco sobre a nova versão do projeto, que está sendo realizado por jovens moradores de favelas.


Qual foi o ponto de partida para o projeto Cinco Vezes Favela?
Depois de mais de uma década de contatos com organizações culturais de favelas cariocas, iniciados com o filme Veja esta canção (1993), tive a idéia de produzir uma nova versão do Cinco Vezes Favela de 1961, um formato criado pelo Centro Popular de Cultura da UNE, sob inspiração de Leon Hirszman. Só que, agora, em vez dos cinco universitários de classe média que o fizeram no passado, os cinco episódios seriam escritos e totalmente realizados por jovens cineastas moradores de favelas cariocas. Dessa vez, o filme se chamaria Cinco Vezes Favela, agora por nós mesmos.
Assim que tive a idéia, eu e Renata Magalhães, minha sócia na produtora Luz Mágica, montamos cinco oficinas de roteiro em cinco comunidades do Rio, com o apoio de organizações locais: em Cidade de Deus (com a Central Única de Favelas - CUFA), Vidigal (com o Nós do Morro), Complexo da Maré (com o Observatório de Favelas), Parada de Lucas (com o Grupo Cultural AfroReggae) e na Linha Amarela (com o Cinemaneiro/Cidadela), e com o patrocínio da Globofilmes. Os alunos de cada oficina escolheram os argumentos pelo voto e depois desenvolveram coletivamente os roteiros.

Fale um pouco sobre o processo das oficinas de preparação técnica.
As oficinas de preparação técnica duraram sete semanas, com uma aula inaugural do “mestre inaugural” Nelson Pereira dos Santos. 603 jovens moradores de favelas se inscreveram para essas oficinas, mas só foi possível atender a pouco mais de 200, devido aos recursos disponíveis e à viabilidade prática das aulas. Os selecionados escolheram as áreas de sua preferência (produção, direção, fotografia, arte, edição, finalização, interpretação) e começaram a ter aulas diárias, incluindo sábados e domingos, com professores como Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Dib Lutfi, Camila Amado, Guto Graça Mello, Lauro Escorel, Marcos Flaksman e muitos outros. Além das aulas regulares, os alunos tiveram à sua disposição uma sala de projeção e computadores para que vissem os filmes indicados pelos professores e outros de seu interesse pessoal, de um acervo que pusemos a seu alcance, através de acordo com a Cavídeo. As oficinas foram realizadas na sede da Rio Filmes, nossa parceira no projeto.
Toda segunda feira, todos os alunos se reuniam para uma palestra coletiva, uma troca de experiências com algum profissional do cinema brasileiro. Eles ouviram Manoel Rangel (presidente da Ancine, sobre A gestão do cinema brasileiro), Cesar Charlone (diretor de fotografia de Cidade de Deus e Ensaio sobre a cegueira, a propósito de “A imagem cinema tográfica”), Daniel Filho (diretor de cinema e TV, com o tema “Cinema e televisão”), João Moreira Salles (o mais importante documentarista brasileiro, falando sobre “Técnica e ética do documentário”), Fernando Meirelles (diretor de Cidade de Deus, O jardineiro fiel e Ensaio sobre a cegueira, abordando “A ficção cinematográfica”) e Walter Salles (diretor de Central do Brasil, analisando o “Cinema contemporâneo”).


Quando começam as filmagens?
A filmagem começará no dia 29 de junho. Os cinco episódios serão realizados em seis semanas, consecutivamente um ao outro. A produtora do filme é a Luz Mágica, com produção de Renata Magalhães, coordenação geral de Carlos Diegues, co-produção da Rio Filme e Globofilmes, apoio da TeleImage, Videofilmes e Quanta, e patrocínio, através das leis de incentivo, do BNDES, Light, LAMSA (Linhas Amarelas) e MMX (Eike Batista). O filme deve estrear no fim do ano, em todo o Brasil, distribuído pela Sony/Columbia.

Qual a finalidade destes jovens envolvidos nas oficinas?
Não estamos preparando apenas mão de obra para o mercado de trabalho formal do cinema brasileiro, mas também treinando esses jovens cineastas para que se tornem porta-vozes deles mesmos, como agentes e testemunhas da vida em suas comunidades. O que eles têm a dizer e o modo de dizê-lo devem ter uma grande contribuição à linha evolutiva do cinema brasileiro.

Você acredita que essa galera proveniente de comunidades e favelas pode trazer algo novo para o nosso cinema?
Se não acreditasse nisso, não estaria promovendo esse projeto. Esse é o ponto central de Cinco vezes favela, agora por nós mesmos: se integrar à economia formal do cinema brasileiro, trazendo com ele uma contribuição transformadora.

Que critério você usou para escolher os diretores dos episódios?
Os diretores foram escolhidos ao final das oficinas de roteiro, em função de seu aproveitamento nelas e do currículo de cada um em seu trabalho audiovisual. Eu já estava acostumado a ver os filmes deles e sabia o que cada um poderia realizar neste novo projeto. Procuramos também entregar a direção de cada filme, na medida do possível, àqueles que estivessem de algum modo ligados ao roteiro escolhido e desenvolvido em cada comunidade.

Qual a importância da favela no cinema?
Acho que a pergunta mais correta seria a inversão dessa: qual a importância do cinema na favela? Acho que é antes de tudo a integração de seus moradores na sociedade brasileira, gozando de todos os seus direitos de cidadão, inclusive a oportunidade que o resto da população possa ter. Uma integração a partir da interpretação da favela pelos seus próprios moradores, capazes de olhar para essas comunidades com um olhar original e pertinente, livre dos preconceitos do resto da sociedade. Cinco Vezes Favela, agora por nós mesmos é um assalto, uma invasão do centro pela margem, através do cinema.

Você acredita que um dia o cinema se torne uma arte popular e de acesso para todos?
Acho que, com as novas tecnologias, estamos caminhando cada vez mais rapidamente para isso. Lembro-me de Francis Ford Coppola afirmando, na época de Apocalipse Now, que o cinema só seria uma grande arte, merecedora do respeito que as outras têm, no dia em que um jovem filho de operário fizer um filme, desses realizados no fim de semana, e descobrirmos que ele é um Giotto ou um Mozart.

Quais são suas expectativas?
Completar a produção de Cinco Vezes Favela, agora por nós mesmos, ajudando a cada um de seus realizadores a fazer, da melhor maneira possível, aquilo que eles desejam expressar. O filme é deles.




OS 5 EPISÓDIOS:

Arroz com feijão, argumento de Zezé da Silva; direção de Rodrigo Felha e Cacau Amaral. Wesley tem 12 anos de idade e sonha dar ao pai, que só come diariamente arroz com feijão, um presente de aniversário inusitado: uma refeição de frango.
Cacau Amaral (36 anos) - Teve várias experiências com audiovisual na CUFA (Central Única da Favelas), incluindo institucionais, curta metragens e videoclipes. Além de seu trabalho com cinema, Cacau, morador de Caxias, também é rapper.
Rodrigo Felha (29 anos) - Mora na Cidade de Deus e vem participando de diversas produções audiovisuais com a CUFA. Foi câmera e editor do documentário “Falcão, Meninos do Tráfico”. Trabalha com Cacau Amaral desde 2003, quando realizaram o clipe “Ataque Verbal”, de MV Bill.


Deixa voar, argumento e direção de Cadu Barcellos. A pipa de Flávio, de 17 anos, cai na favela de uma facção do tráfico rival à da sua comunidade; obrigado a ir recuperá-la, ele descobre que as duas comunidades não são em nada diferentes uma da outra.
Cadu Barcelos (22 anos) - Integrante do grupo Observatório de Favelas, no Complexo da Maré, Cadu Barcelos é autor do argumento do curta Deixa Voar – única trama a abordar a questão do tráfico em Cinco Vezes Favela – Agora por eles mesmos. Aluno do curso de Audiovisual na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Cadu guarda a experiência de já ter dirigido um curta para o Canal Futura.

Concerto para violino, argumento de Rodrigo Cardozo da Silva; direção de Luciano Vidigal. Jota, Pedro e Márcia cresceram juntos, numa mesma comunidade; quando crianças, eles fizeram um juramento de amizade que, agora adultos com diferentes destinos, não têm mais como cumprir.
Luciano Vidigal (29 anos) - Aluno há dezessete anos do grupo Nós do Morro, o ator e diretor Luciano Vidigal foi escolhido para dirigir o curta Concerto para violino, cujo roteiro foi desenvolvido pelos alunos da ONG Afroreggae. No currículo, Luciano traz a direção do premiado curta Neguinho e Kika, que recebeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Marseille (França).

Fonte de renda, argumento de Vilson Almeida de Oliveira; direção de Manaíra Carneiro e Wavá Novais. Maicon realiza seu sonho de passar no vestibular de Direito, mas agora precisa arranjar dinheiro para pagar seus estudos, livros e cadernos.
Manaíra Carneiro (21 anos) - Moradora de Higienópolis, Manaíra teve sua primeira experiência com cinema no curso do Cinemaneiro em 2002. Aluna da Escola Técnica de Audiovisual, a jovem cineasta fez o curso Geração Cultura, no qual produziu vídeos para a TV Futura. Com a experiência de quem, mesmo tão nova, já contabiliza a direção de seis curtas e está dirigindo o curta-metragem Café Sem Chantilly, com o grupo Cinemaneiro.
Wagner Novais (25 anos) - Estudante de Cinema da Universidade Estácio de Sá, Wagner Novais é morador da Taquara. Participou de diversas produções na Universidade e no grupo Cinemaneiro, onde dirigiu três filmes em vídeo. A direção do episódio Fonte de Renda será sua primeira experiência com película.

Acende a luz, argumento e direção de Luciana Bezerra. Na véspera do Natal, o morro está sem luz e os técnicos chamados não conseguem resolver o problema, até que um dos técnicos se torna refém da comunidade que não quer passar o Natal às escuras.
Luciana Bezerra (34 anos) - Uma das coordenadoras do grupo Nós do Morro, a atriz e cineasta Luciana Bezerra trabalha há 14 anos no setor audiovisual. Como diretora, realizou cinco curtas, entre eles Mina de Fé, Hércules e Sebastião. Em Cinco vezes favela, agora por eles mesmos, Luciana é argumentista e diretora do curta Acende a luz, roteirizado pela oficina do grupo Nós do Morro.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entrevista a Fernando Meirelles - por Cavi Borges e Luciano Vidigal

Divulgação
Seu pai é médico gastroenterologista e viajava com razoável freqüência para a Ásia e a América do Norte, entre outras regiões do mundo, o que fez com que Fernando Meirelles mantivesse contato com diferentes culturas e locais, acompanhando o pai. Aos 12 anos de idade, foi presenteado com uma câmera de filmar, e esse passatempo nunca mais foi abandonado. Cursou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo durante a década de 1980. Elaborou seu trabalho de graduação na forma de um filme, diferentemente dos tradicionais projetos preparados por outros graduandos: viajou ao Japão e comprou um equipamento de vídeo profissional para preparar o trabalho. Apresentou-o e recebeu a nota mínima para graduar-se.

Junto com quatro amigos (Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dário Vizeu e Beto Salatini), Meirelles iniciou sua carreira com filmes experimentais. Com o tempo, fundaram uma produtora independente: Olhar Eletrônico. Posteriormente, novos amigos se uniram ao grupo: Renato Barbiere, Agilson Araújo, Toniko e Marcelo Tas. Em 1982 a produtora levou ao ar programas de televisão sobre atualidades, assim como a série infantil Rá-Tim-Bum, com 180 episódios. Além de obterem uma alta popularidade, também introduziram nos noticiários uma informalidade humorística renovadora.

Nos fins da década de 1980, foi-se interessando cada vez mais pelo mercado publicitário. Em 1990, Meirelles e amigos fecharam a Olhar Eletrônico, abrindo uma empresa de propaganda, a O2 Filmes. Uma década foi o suficiente para que Meirelles se tornasse um importante e dos mais procurados produtores publicitários.

Em 1997, Meirelles leu o livro Cidade de Deus, de Paulo Lins. Ele tomou a decisão de adaptá-lo ao cinema, o que se concretizou em 2002, e decidiu que os atores que participariam seriam selecionados entre os habitantes das favelas. Numa etapa final, de 400 crianças, chegaram a 200, com quem trabalharam para a produção final do filme. A filmagem foi feita com técnicos profissionais. O filme teve sucesso nacional e internacional. Em 2004, o filme recebeu as indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Adaptado.

Em 2006, seu filme O Jardineiro Fiel recebeu quatro nomeações ao Oscar: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Montagem e Melhor Atriz Coadjuvante, no qual a atriz Rachel Weiss foi premiada. Como diretor do filme, Meirelles fez questão de que a trilha sonora fosse baseada na música de países africanos, e grande parte das filmagens foi feita no Quênia. Esse foi o primeiro filme de Meirelles em língua inglesa.

Em maio de 2008, Blindness (Ensaio sobre a cegueira) foi o filme de abertura do Festival de Cannes.

Encontramos Fernando Meirelles num debate sobre cinema e batemos um papo sobre o marco do cinema brasileiro, o filme Cidade de Deus, impressões do cinema, suas referências e seus antigos e novos projetos.

FALE UM POUCO SOBRE O INÍCIO DE SUA CARREIRA
“Comecei fazendo o programa RÁ-TIM-BUM, depois passei para a publicidade que foi uma verdadeira escola para mim. Nesses anos cheguei a fazer cerca de 800 comerciais, onde pude trabalhar com vários fotógrafos diferentes e fazer todos os tipos de filmes que possa existir. Um ótimo exercício pratico de realização onde desenvolvi e aprimorei minha técnica cinematográfica. Enquanto vários diretores filmam de 4 em 4 anos, era obrigado a filmar quase que diariamente e pude testar várias linguagens, enquadramentos, equipes entre outras coisas. Porém, comerciais não ensinam fazer DRAMA e como construir e desenvolver personagens. Tive que aprender isso fazendo filmes.”

E O PROCESSO PARA O CINEMA?
“Apesar de ter lançado primeiro o filme DOMÉSTICAS, considero como meu primeiro filme o CIDADE DE DEUS. Realmente comecei a trabalhar nele primeiro, desenvolvendo o roteiro com o Braulio e começando a correr atrás do dinheiro. Enquanto isso acontecia, acabei filmando o DOMÉSTICAS, que era uma peça de teatro. Aproveitei as mesmas atrizes, o texto, até o cenário, filmando tudo em poucas semanas e gastando quase nada. Voltei para filmar o ‘CDD’ e só depois finalizei o DOMÉSTICAS.”

COMO SURGIU O INTERESSE PARA ADAPTAÇÃO DO LIVRO CIDADE DE DEUS?
“Heitor Dhalia, cineasta, que trabalhava comigo na O2 produtora e me apresentou o livro. Inicialmente não me interessava filmar tiros, favelas e a cidade do Rio que eram universos muito distantes do meu cotidiano. Quando li o livro, mudei de idéia na hora. Sabia que o autor do livro PAULO LINS já tinha propostas de outros diretores para vender os direitos para o cinema. Não hesitei em convidá-lo a vir a São Paulo para convencê-lo que eu era a pessoa certa para fazer esse filme. Depois entreguei o livro para o Bráulio Montovani (roteirista) e falei que aquele seria seu primeiro filme. Depois de ler, Bráulio considerou impossível a tarefa de adaptá-lo. Muitas histórias e muitas situações. Como fazer um filme que mostra tantas situações e tantos personagens. Começamos a destacar as histórias que considerávamos mais interessantes e depois começamos a juntar personagens. O que fez que cada personagem no filme representasse vários personagens do livro.”

REZA A LENDA QUE VOCÊ TIROU DINHEIRO DO BOLSO PARA A RELIZAÇÃO DA PRÉ-PRODUÇÃO DO CIDADE DE DEUS.
“Convidei Walter Salles para ser o produtor do filme. Achava que esse filme interessaria mais lá fora que aqui e sabia que Walter tinha bons contatos e seria a pessoa ideal para vendê-lo. Na época, Walter foi convidado pela Miramax para fazer um filme chamado Redenção da Virgem com Benício Del Toro. Ele topou fazer esse filme desde que a Miramax produzisse também Cidade de Deus e Madame Satã que eram filmes pequenos para os padrões deles. Estava tudo acertado e já estávamos realizando as oficinas com os atores no Rio. Benício Del Toro machucou o dedo e o filme do Walter teria que ser adiado. Porém esse adiamento fez que Walter saísse do projeto e consequentemente a Miramax abandonou os outros filmes (CDD e Madame Satã). Fiquei sem dinheiro e tive que fazer uma coisa que não recomendo a ninguem: peguei todo o meu dinheiro ganho em 20 anos de publicidade e apliquei tudo no filme Cidade de Deus. Mas tarde, com o filme pronto, voltei a Miramax para vender o filme. Tivemos uma reunião fatídica de quase 7 horas mas acabei conseguindo 3 vezes mais dinheiro que eles iriam dar anteriormente.”

OS CRÍTICOS DESTACARAM MUITO A SINGULARIDADE DO ELENCO DO CIDADE DE DEUS. COMO FOI O PROCESSSO?
“Não achava que existiam atores profissionais suficientes com os perfis dos personagens que o filme propunha. Chamamos o Guti Fraga do NÓS DO MORRO para treinar jovens achados em várias comunidades do Rio para fazer os papéis do filme. Foram 7 meses de oficinas. Quase todos não tinham experiência como atores profissionais. Isso acabou sendo um grande acerto no filme. Acabou levando também a um processo de filmagem mais livre, sem marcações e textos decorados fazendo tudo parecer mais realista e crível. Tivemos também a chance de testar enquadramentos, texturas e situações fazendo o curta PALACE II que virou um episódio do BRAVA GENTE BRASILEIRA. César Charlone, o fotógrafo do filme, resolveu testar muita coisa nova e acabou desenvolvendo um processo de finalização da imagem que durou quase 4 meses e que pouco era conhecido aqui no Brasil. Essa finalização digital deu um ‘look’ especial ao filme. Acho também que as participações de Daniel Rezende, o montador, que trazia o frescor e influências de sua origem como DJ e do roteiro do Bráulio, fizeram do filme um espaço de experimentação. Todos eram iniciantes e traziam novas idéias. Demos muita sorte. Tudo foi dando certo e acabou contribuindo com o resultado final do filme.”

MUDOU ALGUMA COISA DEPOIS DO SUCESSO DO FILME?
“Mudou tudo! Uma semana depois da exibição do filme no festival de Cannes, recebi dezenas de roteiros de diversos produtores internacionais. Quase todos os filmes eram relacionados a gangues e histórias de gueto. Fui literalmente atropelado pelo mercado internacional. Acabei desenvolvendo um projeto com César Charlone chamado INTOLERÂNCIA que era filmado em vários países diferentes. Um dia, voltando de visitas de locações na África conheci um produtor inglês que me ofereceu o roteiro do JARDINEIRO FIEL. Gostei do projeto, pois além de ter locações na África, local provável de filmagem do projeto INTOLERÂNCIA, estava muito interessado sobre as leis da indústria farmacêuticas. Uma verdadeira máfia. Queria cutucar essas pessoas com meu filme. Nesse filme, pela primeira vez trabalhei com atores profissionais de cinema. Era uma realidade totalmente diferente. Um grande desafio também, pois teria que dirigi-los em inglês. Enquanto no CIDADE DE DEUS ensaiamos 9 meses, no JARDINEIRO FIEL li o roteiro com Ralph Fiennes apenas duas vezes e foi o suficiente”.

FALE UM POUCO SOBRE O SEU ÚLTIMO TRABALHO BLINDNESS
“Foi mais uma jogada do destino. Tinha lido o livro há muito tempo e resolvi que queria filmá-lo. Seria meu primeiro filme. Procurei Saramago na época que não se interessou em transformar o livro em filme. Anos depois um produtor me ofereceu para fazê-lo. Procurei Saramago para me ajudar a desenvolver o roteiro.Queria muito a sua colaboração. Ele me disse que não queria se meter. Que o filme era meu. O filme teve locações no Canadá, Japão e no Brasil. Filmamos em São Paulo. Queria muito que fosse filmado no Brasil. Acho que uma das minhas missões é tentar internacionalizar o cinema brasileiro. Quero botar o Brasil no circuito internacional. Sempre pensei no Saramago enquanto fazia o filme. Era uma responsabilidade muito grande adaptar esse livro. Quando passou no Festival de Cannes foi uma verdadeira catástrofe. As críticas foram muito duras com o filme. Logo depois fui para Lisboa mostrar o filme para Saramago. Durante a exibição ele não deu uma palavra e não demonstrou uma única reação. Os créditos começaram a subir e ele não falava nada. Quando a luz acendeu, olhei para o lado e ele estava chorando. Tinha adorado e estava emocionado. Respirei aliviado.”

QUAIS SÃO SEUS PROXIMOS PROJETOS?
“Acabei de fazer uma série para a TV GLOBO chamada SOM E FÚRIA. É sobre uma companhia de teatro. Usamos cerca de 100 atores com um texto muito simples e direto. Chamei diretores estreantes para dirigir alguns episódios e fiz a direção geral. Meu próximo filme deve ser uma comédia escrita por Jorge Furtado. Queria muito um dia adaptar para o cinema Grande Sertão: Veredas e tem outro projeto chamado EUMINA, que seria uma grande saga filmada na Costa Oeste da África que mostraria como aconteceu o mercado negreiro com o Brasil. Mostraria o nascimento na tribo africana até a morte no engenho no Brasil.”

ALGUMAS DICAS PARA OS NOVOS CINEASTAS?
“Sejam PRETENCIOSOS! Não reproduzam o que já foi feito. Surpreendam as pessoas com coisas e idéias novas. Eu sempre crio um desafio pra mim e vou atrás dele conquistá-lo. Fazer uma coisa que não sei fazer. Isso me estimula”.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Entrevista de Luciano Vidigal e Cavi Borges a Jorge Duran


Durante os meses de janeiro e fevereiro, na cidade do Rio de Janeiro. O Cineasta chileno ,radicado no Brasil, Jorge Duran dirigiu o seu terceiro filme "Não se pode viver sem amor"
O filme conta a estória de Gabriel, um garoto de 7 anos, que viaja com a jovem Roseli, 27 anos, para uma grande cidade em busca do pai que o abandonara há muito tempo. Tendo
apenas um endereço como referência, os dois vagam pela cidade, enfrentando perigos, descobrindo um
forte dom de Gabriel e encontrando pessoas que os ajudarão a desvendar o passado.

Durán é considerado um dos grandes roteiristas em atividade no
país. Possui um currículo de clássicos do cinema nacional como “Lúcio Flávio, o passageiro da agônia”
(1977), “Pixote, a lei do mais fraco” (1981), e “O Beijo da Mulher-Aranha” (1985), todos dirigidos por
Hector Babenco; e “Gaijin, caminhos da liberdade” (1979), de Tizuka Yamasaki. Durán também foi coroteirista
de “Nunca fomos tão felizes” (1984); de “Como nascem os anjos” (1996), de Murilo Salles;
e “Jogo Subterrâneo”, de Roberto Gervitz. Como cineasta dirigiu os longas-metragens “A cor de seu
destino” (1986) e “Proibido Proibir” (2006), filme que recebeu diversas premiações internacionais, dentre
as quais os prêmios de melhor filme nos festivais de Biarritz (França) e Viña del Mar (Chile); o prêmio
especial do júri em Havana (Cuba) e o de melhor direção em Valdívia (Chile).


O elenco do filme é composto por atores conhecidos do grande público. Angelo Antonio, de DOIS FILHOS DE FRANCISCO’, Cauã Reymond, da novela ‘A FAVORITA da TV GLOBO, Simone Spoladore, de ‘LAVOURA ARCAICA’ e O ANO QUE MEUS PAIS SAIRAM
DE FÉRIAS’, Maria Ribeiro, de ‘TROPA DE ELITE’ . Fabiula Nascimento do filme ‘ESTÔMAGO’ e o recentemente premiado, no Festival do Rio 2007, Babu Santana .

Eu tive o privilégio de fazer parte da equipe do filme como peparador de elenco. Aproveitei a deixa e convidei o amigo Cavi Borges para um bate um papo com o cineasta Jorge Duran.



Duran! Eu e o Cavi queremos começar nosso bate papo sabendo suas palavras sobre seu novo filme "Não se pode viver sem amor".
O tamanho de grandes cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro sempre me impressionou.
O sentimento de anonimato que elas me produzem me agrada e assusta. Faz-me pensar nas
possibilidades infinitas de cruzamentos, em impossíveis encontros, a não ser pelo azar, a sorte, o destino
– aceitemos por um momento que ele existe. Olhando as pessoas nas ruas,
nas imensas avenidas, a
proporção minúscula da gente ao lado dos imensos prédios, um dia pensei quais seriam as chances de
encontrar alguém, de quem não tivéssemos endereço, ou telefone, ou algum conhecido comum.
Concluí que somente um milagre permitiria esse encontro.
Este roteiro fala de gente comum, gente que vemos nas ruas e raramente olhamos mais de uma vez.
Pessoas que carregam dentro de si, como todos nós, o mais profundo dos mistérios: aquele da vida e
da morte. Neste filme quero afirmar que é possível ter esperanças, que é imprescindível não perder a
esperança. Gosto de pensar nas estratégias de sobrevivência que adotamos no dia a dia. Gosto de ver
no cinema dramas de gente comum, exercendo suas estratégias de sobrevivência. Ainda, este roteiro
me permite revelar o Rio de Janeiro que eu vejo, o brasileiro como o vejo.


Como foi a experiência de filmar na cidade do Rio de Janeiro?
Filmar no Rio nunca foi fácil. Principalmente nos últimos anos. A burocracia exige autorizações e acompanhamento da prefeitura para filmar na rua. A insegurança obriga a trabalhar escolhendo cuidadosamente as locações, para evitar pôr em perigo a equipe e o equipamento.
Tem regiões na cidade em que é difícil conseguir apoio ou preços convenientes para alugar locações, provavelmente porque a TV satura a cidade com propostas em dinheiro ou visibilidade que facilita a vida deles, mas a longo prazo dificulta a quem vai filmar para cinema.
A alimentação é cara, embora em geral boa.
Contudo, a cidade é uma grande desconhecida para o publico em geral, que conhece muito bem as zonas turísticas ignorando bairros mais distante, de grande tradição e beleza.
Foi nesses bairros que escolhi as locações para este NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR e no PROIBIDO PROIBIR.

O roteiro deste filme foi escrito por você e a Dani Patarra antes do "Proibido Proibir". Por que demorou tanto tempo para ser filmado?

O roteiro nasceu de um argumento meu, desenvolvido pela Dani e eu.
Embora o roteiro ganhou em 1999 o prêmio de melhor roteiro no concurso nacional organizado pela SAV do Minc, foi convidado a participar de um Sundance em São Paulo e outro em Barcelona, foi selecionado para o mercado de projetos de Rotterdam e Mannheim, não despertou interesse no Brasil. O BNDES o rejeitou duas vezes e na PETROBRAS somente passou num segundo concurso, fora outros concursos onde não foi visto com interesse.

Como foi produzir esse filme?
Não foi fácil, porque o orçamento, que deve chegar no fim a R$1.400.000, é pequeno para o tipo de roteiro. Rodar em 5 semanas foi muito difícil e exigiu um trabalho intenso da equipe toda. Nestes casos, você tem que confiar muito na sua intuição do que está acontecendo, porque se para e olha atentamente o resultado de cada tomada, precisaria de duas a três semanas a mais. A equipe foi formada com colegas com muita experiência e jovens profissionais com pouca experiência. Isso, logicamente obriga a filmar mais lentamente. O elenco de atores com experiência aceitou trabalhar muitas horas, cobrando honorários baixos. Atores, como você sabe por experiência, caro Luciano, neste tipo de produção, são sempre muito generosos.
Por que um diretor com seu histórico encontra dificuldades para conseguir dinheiro pra filmar aqui no Brasil?
Acho que tenho alguma dificuldade a mais. Mas me lembro de quantos colegas não fizeram ainda seu primeiro longa, acho que tenho sido bem tratado. Por outro lado, sempre fui visto como um roteirista e isso não deve ter ajudado muito. Nos concursos esqueceram que junto com roteirista, ou antes de me dedicar principalmente a escrever, fui assistente ou diretor assistente, produtor executivo, diretor de produção, aqui e no Chile, em mais de 20 filmes.
Como foi trabalhar com orçamento mínimo?
Já expliquei acima. Mas já me acostumei e vou prestar mais atenção aos roteiros que escrevo para mim, contando antecipadamente, com pouco dinheiro. Acho que posso fazer filmes interessantes se não perder a objetividade: no Brasil, cada vez se concentra mais o dinheiro em produções grandes, que pouco me interessam nos resultados que mostram.
Filmei em digital e penso continuar filmando em digital. É mais barato durante a filmagem e mais caro na finalização. O que mais gostei é das possibilidades de rodar, experimentar com mais liberdade, já que o preço do negativo é constrangedor. Pensei que o Digital mudou minha forma de pensar o que vou rodar, já que posso fazer da filmagem, de cada plano, uma espécie de “ work in progress” permanente. No fim, o que importa é ter um bom conflito, bons atores, temas e idéias. O que me interessa são as pessoas e seus conflitos. E para isso o digital me serve muito bem.
A falta do dinheiro modificou ou influenciou no roteiro e na forma de filmar?

Modificou sim. Normalmente durante a filmagem vou reescrevendo o roteiro, conforme vou vendo nascer o filme dia a dia. Uso o roteiro como um bom guia para não perder o rumo, uma idéia de ritmo e tempo, mas o que me interessa manter vivo é o tema e as idéias. Cuido do elenco nas suas qualidades e dificuldades, o que me obriga a uma constante revisão da ação e diálogos.
Você foi júri do festival do Rio 2008. Percebeu alguma novidade nas produções brasileiras? destacaria algum diretor promissor no cinema brasileiro?
Gosto do trabalho do José Eduardo Belmonte, do Heitor Dhalia, do Claudio Assis, do Lírio Ferreira, do Karim Ainouz e de alguns mais velhos, como o Murilo Salles. Acho o cinema mais dirigido ao publico, que vai procurando uma entretenimento fácil, chato e pouco interessante, mas absolutamente necessário. Acho bom que o publico tenha oportunidade de ver diversos Brasis mostrados pelos cineastas. Mas acho que a política de governo é liquidar o cinema independente, se é que a denominação tem ainda algum significado.

Bia Castro, produtora executiva de cinema,disse que o maior problema dos filmes brasileiros é o roteiro. Você concorda?

Discordo. Tenho longa experiência trabalhando com diretores de diversas gerações. A falta de objetividade de muitos deles, é assustadora. Ultimamente, os Produtores tem acertado mais, mas a quantidade de fracassos que tem produzido ao longo dos anos é significativo. A Bia esquece que nenhum roteirista tem o poder para que o que se escreve seja filmado: essa possibilidade sempre esteve nas mãos dos diretores-produtores ou só dos produtores. Eles que escolhem gastar e filmar do jeito que pensam. E nós que escrevemos mal? Raciocínio esdrúxulo da Bia.

Qual é a sua expectativa para seu novo filme "Não se pode viver sem amor"?

Nenhuma. Se meus amigos gostarem e os amigos dos meus amigos, fico contente (acho que Buñuel tinha toda a razão quando disse essa frase, à qual me associo). Mas se o publico aceitar ele, vou ficar muito feliz. Com o orçamento de filmagem pequeno fiz tudo para fazer um bom filme. Mas para sair nos cinemas, é outra coisa. Por exemplo, PROIBIDO PROIBIR teve R$200.000 para o lançamento, incluindo tudo. Outros filmes, na mesma época estrearam com orçamento varias vezes maior. Alguns tiveram muito sucesso, outros, nem tanto. Mas na hora de fazer a conta, vale igual para quem sai com 12 copias, que o sai com 200, ou mais copias. Ninguém faz a conta de quanto rendeu cada copia: essa caixa preta fica esquecida.