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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Cine Nós do Morro recebe Emmanuel Benbihy, produtor da série "Cities of Love"

O produtor de cinema Emmanuel Benbihy, responsável pela franquia "Cities of Love", que já concebeu os longas "Paris, eu te amo" (2006) e "Nova York, eu te amo" (2009) é o convidado desta quinta-feira, dia 25 de abril, do Cine Nós do Morro. O evento será um Master Class no Salão Rosa do Casarão do Nós do Morro e inicia às 19h30, com exibição de parte dos filmes sobre o amor, seguido da fala de Emmanuel. O produtor aproveita a oportunidade para comentar sobre o novo trabalho: "Rio, eu te amo", a ser rodado no Brasil. O Cine Nós do Morro tem entrada gratuita, com capacidade para 60 pessoas.


Através da produtora Conspiração Filmes, Emmanuel procurou o Núcleo de Audiovisual do Nós do Morro e propôs uma palestra na Instituição. O produtor pretende expor suas experiências, ideias sobre a indústria do cinema e seu funcionamento atual e as peculiaridades nas produções da série "Cities of Love". “Vou falar sobre os mercados de cinema emergentes e economias como as da China e Brasil; os desafios do futuro para mudar a indústria cinematográfica para melhor; as quotas de cinema e protecionismo e defender a necessidade de proteger nossas indústrias culturais em um momento crucial em seu desenvolvimento”, afirma ele.

Os filmes exibidos antes da palestra serão "Paris, eu te amo" e "Nova York, eu te amo", da série "Cities of Love", que ilustra a universalidade do amor nas grandes cidades ao redor do mundo. Cada episódio desta série coletiva é composto por dez segmentos criados por diretores estabelecidos a partir dos países em que são rodados. A linha da história de cada segmento é centrada em um encontro que tem a esperança de amor nos tempos de hoje. Cada trama contém forte presença da cidade ilustrada e uma identificação visual com a área escolhida por cada diretor, para que o público possa experimentar a sua singularidade.

Atualmente, cinco cidades estão sendo preparadas para receber o projeto, sendo uma delas o Rio de Janeiro. O lançamento está previsto para 2013, antecedendo a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos no Brasil. A ideia é passar ainda por Jerusalém, Xangai, Berlim, Nova Orleans, Mumbai, México, Singapura, Roterdão, Madri, São Petersburgo, Viena, Londres, entre outras.

O Cine Nós do Morro é um projeto semanal, que exibe filmes seguidos de debates, gratuitamente, no Salão Rosa do Casarão do Nós do Morro (Rua Dr. Olinto de Magalhães, 54, Vidigal), sempre às quintas-feiras, 19h30. Os eventos são abertos ao público e também fazem parte da grade de aulas de cinema da instituição, que é patrocinada pela Petrobras desde 2001.

+ sobre Emmanuel Benbihy:

 Emmanuel Benbihy nasceu em Paris (França), em 1969. Trabalhou por um ano no co-desenvolvimento de indústrias de cinema na Europa e Ásia, atendendo a muitos mercados estrangeiros. Sua pesquisa foi enviada ao Ministério das Relações Exteriores e do Conselho de Cinema Francês, e se tornou seu tema central de pesquisa na Universidade de La Sorbonne, Paris. Para ele, este período de reflexão foi decisivo: o cinema não deve permanecer sob a liderança e hegemonia de Hollywood. Naquela época, ele escolheu sua profissão: a produção de filmes em todo o mundo. Em 1996, ele se juntou a uma companhia de produção independente e, em abril de 2000, a aventura de ´Paris, eu te amo´ começou.

Simultaneamente, Emmanuel produziu ´Abjad´, durante a guerra do Afeganistão, dirigido por Abolfazl Jalili e selecionado em competição oficial no Festival de Veneza de 2003. A produção de ´Paris, eu te amo´ começou em julho de 2005 e o filme abriu o Festival de Filmes de Cannes em 2006. Depois veio ´Nova York, eu te amo´, concluído em 2009. As cidades do Amor agora são baseadas em uma variedade de conteúdo e crescem através da implementação e do desenvolvimento dos movimentos culturais locais que expressam o amor nas cidades e para as cidades.

Emmanuel também produziu os primeiros curtas-metragens dirigidos por Natalie Portman e Scarlett Johansson. Desde julho de 2009, ele vive em Xangai, na China.

SERVIÇO

Cine Nós do Morro – Master Class com Emmanuel Benbihy
Exibição de trechos dos filmes "Nova York, eu te amo" e "Paris, eu te amo" 
Debatedor: Emmanuel Benbihy
Quinta-feira, dia 25 de abril de 2013, às 19h30
Salão Rosa do Casarão do Grupo Nós do Morro
Endereço: Rua Doutor Olinto de Magalhães, 54, Vidigal, RJ
Telefones: (21) 3874-9411 e (21) 3874-9412
Capacidade: 60 pessoas
Classificação: 16 anos
Entrada Gratuita.

Ficha Técnica ´Paris, eu te amo´:
Título Original: Paris, Je T'Aime.
Origem: França / Alemanha / Liechstenstein / Suíça, 2006.
Diretores: Olivier Assayas, Frédéric Auburtin, Emmanuel Benbihy, Gurinder Chadha, Sylvain Chomet, Ethan Coen, Joel Coen, Alfonso Cuarón, Gérard Depardieu, Christopher Doyle, Vincenzo Natali, Alexander Payne, Walter Salles, Oliver Schmitz, Nobuhiro Suwa
Elenco: Martin Combes, Maggie Gyllenhaal, Joana Preiss, Natalie Portman, Gena Rowlands, Ludivine Sagnier, Marianne Faithfull, Ben Gazzara, Bob Hoskins, Willem Dafoe, Steve Buscemi, Javier Cámara, Juliette Binoche, Fanny Ardant.
Produção: Emmanuel Benbihy, Claudie Ossard
Roteiro: Tristan Carné, Emmanuel Benbihy, Ethan Coen, Joel Coen, Olivier Assayas, Gurinder Chadha, Gena Rowlands, Sylvain Chomet, Richard LaGravenese, Vincenzo Natali, Raphaël Nadjari, Isabel Coixet, Christoph
Fotografia: Maxime Alexandre, Michel Amathieu, Pierre Aïm, Bruno Delbonnel, Eric Gautier, Frank Griebe, Eric Guichard
Trilha Sonora: Pierre Adenot, Reinhold Heil, Johnny Klimek, Nathaniel Méchaly, Tom Tykwer
Duração: 126 min.
Ano: 2006
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Victoires International
Classificação: 16 anos

Ficha técnica ´Nova York, eu te amo´:
Título Original: Ney York, i love you
Diretores: Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Shekhar Kapur, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Brett Ratner, Randall Balsmeyer
Elenco: Shia LaBeouf, Natalie Portman, Orlando Bloom, Andy Garcia, Hayden Christensen, Bradley Cooper, Blake Lively, Justin Bartha, Christina Ricci, Rachel Bilson, John Hurt, Robin Wright, Ethan Hawke, Maggie Q.
Produção: Emmanuel Benbihy, Marina Grasic
Roteiro: Scarlett Johansson, Joshua Marston, Alexandra Cassavetes, Stephen Winter, Jeff Nathanson, Natalie Portman, Anthony Minghella
Fotografia: Benoît Debie, Pawel Edelman, Michael McDonough, Declan Quinn, Mauricio Rubinstein
Trilha Sonora: Tonino Baliardo, Nicholas Britell, Paul Cantelon, Mychael Danna, Ilhan Ersahin, Jack Livesey, Shoji Mitsui, Mark Mothersbaugh, Peter Nashel, Atticus Ross, Leopold Ross, Claudia Sarne, Marcelo Zarvos
Duração: 110 min.
Ano: 2009
País: EUA/ França
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Califórnia Filmes
Estúdio: Ever So Close / Benaroya Pictures / Also Known As Pictures / Grand Army Entertainment / Sherazade Film Development / Visitor Pictures

sábado, 28 de agosto de 2010

NOITE DE FESTA NA QUINTA-FEIRA DIA 02/09/2010 - LANÇAMENTO " MEU DESTINO ERA O NÓS DO MORRO" DE LUCIANA BEZERRA




Meu destino era o Nós do Morro, livro de Luciana Bezerra, chega às livrarias com o selo da Aeroplano Editora. A noite de autógrafos será no dia 2 de setembro, quinta-feira, às 19h, na Livraria Argumento, na Rua Dias Ferreira, 417 – Leblon (Rio de Janeiro). Após o lançamento, terá um show no casarão do Nós do Morro, na Rua Dr. Olinto de Magalhães, nº 54 (Vidigal), com bandas do próprio lugar. O show começa às 21h e vai até às 2h, cantam Melanina Carioca, Emília Lins, além do encerramento com o DJ Micael Borges.

Luciana é, antes de tudo, um exemplo de quem vestiu a camisa do grupo e caminhou com a gente, ao participar e contribuir para o fortalecimento da filosofia do Nós do Morro: criar acesso ao mundo da arte e da cultura para todos que não têm direito a estes, que são dois dos bens mais fundamentais da humanidade.”
Guti Fraga

O livro conta a trajetória do grupo Nós do Morro, pela ótica da sua coordenadora de Audiovisual, Luciana Bezerra. A autora fala de suas experiências no grupo como atriz, figurinista, diretora, escritora e roteirista. Sua narrativa vai desde a infância, nos tempos de Maricá e da Rocinha até a chegada no Vidigal, onde vive até hoje. Apaixonada por cinema, realizou o curta-metragem “Mina de Fé” – ganhador de vários prêmios, como melhor filme no Festival Curta Cinema, no 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro –, e o episódio “Acende a luz”, do projeto 5x Favela – Agora por nós mesmos, produzido por Cacá Diegues.

Meu destino era o Nós do Morro, de Luciana Bezerra
(texto de quarta capa) Guti Fraga
264 p – R$ 28,00
Aeroplano Editora / http://www.aeroplanoeditora.com.br/


Meu destino era o Nós do Morro (Trecho do capítulo que dá título ao livro )
Tinha então treze anos, seria um ano inesquecível esse. Não era uma má aluna, mas sempre gostei de falar um pouco demais da conta, o que não me ajudava muito. Mas na simpatia eu era nota dez. Minha mãe sempre disse: Luciana, desde bebê vai com a cara de todo mundo!
Minha irmã, que não era uma adolescente fácil estava com dezessete e muita discordância com a minha mãe. Uma delas passou ser a principal: o teatro.
Na época, minha mãe considerava não ter nada haver com minha irmã, e que ela não devia se meter naquela história. Afirmava que sua vontade de fazer parte da trupe de atores vinha do fato, de um componente ser seu namorado, há alguns meses.
Isso rendeu. Em algumas famílias a arte ainda era vista de forma deturpada, os artistas eram confundidos com libertinos e drogados. Os filhos da ditadura. Mas no Vidigal se dava o início de uma revolução.Dentro de uma favela carioca, com moradores do próprio bairro Eram os precursores do Nós do Morro. O Guti Fraga havia montado um espetáculo que se chamava “Encontros”, onde estavam dois dos meus amigos Rômulo e Barton. Uma tarde de 1987 ao subir da praia com a minha mãe, encontramos o Guti e um a turma de Jovens, faziam a divulgação de uma peça no ponto do ônibus. Fora assistir naquele dia mesmo. Era um domingo e a sessão acabava mais cedo. A mãe não foi, mas marcou a hora que deveríamos chegar juntas e no horário marcado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Entrevista a Fernando Meirelles - por Cavi Borges e Luciano Vidigal

Divulgação
Seu pai é médico gastroenterologista e viajava com razoável freqüência para a Ásia e a América do Norte, entre outras regiões do mundo, o que fez com que Fernando Meirelles mantivesse contato com diferentes culturas e locais, acompanhando o pai. Aos 12 anos de idade, foi presenteado com uma câmera de filmar, e esse passatempo nunca mais foi abandonado. Cursou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo durante a década de 1980. Elaborou seu trabalho de graduação na forma de um filme, diferentemente dos tradicionais projetos preparados por outros graduandos: viajou ao Japão e comprou um equipamento de vídeo profissional para preparar o trabalho. Apresentou-o e recebeu a nota mínima para graduar-se.

Junto com quatro amigos (Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dário Vizeu e Beto Salatini), Meirelles iniciou sua carreira com filmes experimentais. Com o tempo, fundaram uma produtora independente: Olhar Eletrônico. Posteriormente, novos amigos se uniram ao grupo: Renato Barbiere, Agilson Araújo, Toniko e Marcelo Tas. Em 1982 a produtora levou ao ar programas de televisão sobre atualidades, assim como a série infantil Rá-Tim-Bum, com 180 episódios. Além de obterem uma alta popularidade, também introduziram nos noticiários uma informalidade humorística renovadora.

Nos fins da década de 1980, foi-se interessando cada vez mais pelo mercado publicitário. Em 1990, Meirelles e amigos fecharam a Olhar Eletrônico, abrindo uma empresa de propaganda, a O2 Filmes. Uma década foi o suficiente para que Meirelles se tornasse um importante e dos mais procurados produtores publicitários.

Em 1997, Meirelles leu o livro Cidade de Deus, de Paulo Lins. Ele tomou a decisão de adaptá-lo ao cinema, o que se concretizou em 2002, e decidiu que os atores que participariam seriam selecionados entre os habitantes das favelas. Numa etapa final, de 400 crianças, chegaram a 200, com quem trabalharam para a produção final do filme. A filmagem foi feita com técnicos profissionais. O filme teve sucesso nacional e internacional. Em 2004, o filme recebeu as indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Adaptado.

Em 2006, seu filme O Jardineiro Fiel recebeu quatro nomeações ao Oscar: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Montagem e Melhor Atriz Coadjuvante, no qual a atriz Rachel Weiss foi premiada. Como diretor do filme, Meirelles fez questão de que a trilha sonora fosse baseada na música de países africanos, e grande parte das filmagens foi feita no Quênia. Esse foi o primeiro filme de Meirelles em língua inglesa.

Em maio de 2008, Blindness (Ensaio sobre a cegueira) foi o filme de abertura do Festival de Cannes.

Encontramos Fernando Meirelles num debate sobre cinema e batemos um papo sobre o marco do cinema brasileiro, o filme Cidade de Deus, impressões do cinema, suas referências e seus antigos e novos projetos.

FALE UM POUCO SOBRE O INÍCIO DE SUA CARREIRA
“Comecei fazendo o programa RÁ-TIM-BUM, depois passei para a publicidade que foi uma verdadeira escola para mim. Nesses anos cheguei a fazer cerca de 800 comerciais, onde pude trabalhar com vários fotógrafos diferentes e fazer todos os tipos de filmes que possa existir. Um ótimo exercício pratico de realização onde desenvolvi e aprimorei minha técnica cinematográfica. Enquanto vários diretores filmam de 4 em 4 anos, era obrigado a filmar quase que diariamente e pude testar várias linguagens, enquadramentos, equipes entre outras coisas. Porém, comerciais não ensinam fazer DRAMA e como construir e desenvolver personagens. Tive que aprender isso fazendo filmes.”

E O PROCESSO PARA O CINEMA?
“Apesar de ter lançado primeiro o filme DOMÉSTICAS, considero como meu primeiro filme o CIDADE DE DEUS. Realmente comecei a trabalhar nele primeiro, desenvolvendo o roteiro com o Braulio e começando a correr atrás do dinheiro. Enquanto isso acontecia, acabei filmando o DOMÉSTICAS, que era uma peça de teatro. Aproveitei as mesmas atrizes, o texto, até o cenário, filmando tudo em poucas semanas e gastando quase nada. Voltei para filmar o ‘CDD’ e só depois finalizei o DOMÉSTICAS.”

COMO SURGIU O INTERESSE PARA ADAPTAÇÃO DO LIVRO CIDADE DE DEUS?
“Heitor Dhalia, cineasta, que trabalhava comigo na O2 produtora e me apresentou o livro. Inicialmente não me interessava filmar tiros, favelas e a cidade do Rio que eram universos muito distantes do meu cotidiano. Quando li o livro, mudei de idéia na hora. Sabia que o autor do livro PAULO LINS já tinha propostas de outros diretores para vender os direitos para o cinema. Não hesitei em convidá-lo a vir a São Paulo para convencê-lo que eu era a pessoa certa para fazer esse filme. Depois entreguei o livro para o Bráulio Montovani (roteirista) e falei que aquele seria seu primeiro filme. Depois de ler, Bráulio considerou impossível a tarefa de adaptá-lo. Muitas histórias e muitas situações. Como fazer um filme que mostra tantas situações e tantos personagens. Começamos a destacar as histórias que considerávamos mais interessantes e depois começamos a juntar personagens. O que fez que cada personagem no filme representasse vários personagens do livro.”

REZA A LENDA QUE VOCÊ TIROU DINHEIRO DO BOLSO PARA A RELIZAÇÃO DA PRÉ-PRODUÇÃO DO CIDADE DE DEUS.
“Convidei Walter Salles para ser o produtor do filme. Achava que esse filme interessaria mais lá fora que aqui e sabia que Walter tinha bons contatos e seria a pessoa ideal para vendê-lo. Na época, Walter foi convidado pela Miramax para fazer um filme chamado Redenção da Virgem com Benício Del Toro. Ele topou fazer esse filme desde que a Miramax produzisse também Cidade de Deus e Madame Satã que eram filmes pequenos para os padrões deles. Estava tudo acertado e já estávamos realizando as oficinas com os atores no Rio. Benício Del Toro machucou o dedo e o filme do Walter teria que ser adiado. Porém esse adiamento fez que Walter saísse do projeto e consequentemente a Miramax abandonou os outros filmes (CDD e Madame Satã). Fiquei sem dinheiro e tive que fazer uma coisa que não recomendo a ninguem: peguei todo o meu dinheiro ganho em 20 anos de publicidade e apliquei tudo no filme Cidade de Deus. Mas tarde, com o filme pronto, voltei a Miramax para vender o filme. Tivemos uma reunião fatídica de quase 7 horas mas acabei conseguindo 3 vezes mais dinheiro que eles iriam dar anteriormente.”

OS CRÍTICOS DESTACARAM MUITO A SINGULARIDADE DO ELENCO DO CIDADE DE DEUS. COMO FOI O PROCESSSO?
“Não achava que existiam atores profissionais suficientes com os perfis dos personagens que o filme propunha. Chamamos o Guti Fraga do NÓS DO MORRO para treinar jovens achados em várias comunidades do Rio para fazer os papéis do filme. Foram 7 meses de oficinas. Quase todos não tinham experiência como atores profissionais. Isso acabou sendo um grande acerto no filme. Acabou levando também a um processo de filmagem mais livre, sem marcações e textos decorados fazendo tudo parecer mais realista e crível. Tivemos também a chance de testar enquadramentos, texturas e situações fazendo o curta PALACE II que virou um episódio do BRAVA GENTE BRASILEIRA. César Charlone, o fotógrafo do filme, resolveu testar muita coisa nova e acabou desenvolvendo um processo de finalização da imagem que durou quase 4 meses e que pouco era conhecido aqui no Brasil. Essa finalização digital deu um ‘look’ especial ao filme. Acho também que as participações de Daniel Rezende, o montador, que trazia o frescor e influências de sua origem como DJ e do roteiro do Bráulio, fizeram do filme um espaço de experimentação. Todos eram iniciantes e traziam novas idéias. Demos muita sorte. Tudo foi dando certo e acabou contribuindo com o resultado final do filme.”

MUDOU ALGUMA COISA DEPOIS DO SUCESSO DO FILME?
“Mudou tudo! Uma semana depois da exibição do filme no festival de Cannes, recebi dezenas de roteiros de diversos produtores internacionais. Quase todos os filmes eram relacionados a gangues e histórias de gueto. Fui literalmente atropelado pelo mercado internacional. Acabei desenvolvendo um projeto com César Charlone chamado INTOLERÂNCIA que era filmado em vários países diferentes. Um dia, voltando de visitas de locações na África conheci um produtor inglês que me ofereceu o roteiro do JARDINEIRO FIEL. Gostei do projeto, pois além de ter locações na África, local provável de filmagem do projeto INTOLERÂNCIA, estava muito interessado sobre as leis da indústria farmacêuticas. Uma verdadeira máfia. Queria cutucar essas pessoas com meu filme. Nesse filme, pela primeira vez trabalhei com atores profissionais de cinema. Era uma realidade totalmente diferente. Um grande desafio também, pois teria que dirigi-los em inglês. Enquanto no CIDADE DE DEUS ensaiamos 9 meses, no JARDINEIRO FIEL li o roteiro com Ralph Fiennes apenas duas vezes e foi o suficiente”.

FALE UM POUCO SOBRE O SEU ÚLTIMO TRABALHO BLINDNESS
“Foi mais uma jogada do destino. Tinha lido o livro há muito tempo e resolvi que queria filmá-lo. Seria meu primeiro filme. Procurei Saramago na época que não se interessou em transformar o livro em filme. Anos depois um produtor me ofereceu para fazê-lo. Procurei Saramago para me ajudar a desenvolver o roteiro.Queria muito a sua colaboração. Ele me disse que não queria se meter. Que o filme era meu. O filme teve locações no Canadá, Japão e no Brasil. Filmamos em São Paulo. Queria muito que fosse filmado no Brasil. Acho que uma das minhas missões é tentar internacionalizar o cinema brasileiro. Quero botar o Brasil no circuito internacional. Sempre pensei no Saramago enquanto fazia o filme. Era uma responsabilidade muito grande adaptar esse livro. Quando passou no Festival de Cannes foi uma verdadeira catástrofe. As críticas foram muito duras com o filme. Logo depois fui para Lisboa mostrar o filme para Saramago. Durante a exibição ele não deu uma palavra e não demonstrou uma única reação. Os créditos começaram a subir e ele não falava nada. Quando a luz acendeu, olhei para o lado e ele estava chorando. Tinha adorado e estava emocionado. Respirei aliviado.”

QUAIS SÃO SEUS PROXIMOS PROJETOS?
“Acabei de fazer uma série para a TV GLOBO chamada SOM E FÚRIA. É sobre uma companhia de teatro. Usamos cerca de 100 atores com um texto muito simples e direto. Chamei diretores estreantes para dirigir alguns episódios e fiz a direção geral. Meu próximo filme deve ser uma comédia escrita por Jorge Furtado. Queria muito um dia adaptar para o cinema Grande Sertão: Veredas e tem outro projeto chamado EUMINA, que seria uma grande saga filmada na Costa Oeste da África que mostraria como aconteceu o mercado negreiro com o Brasil. Mostraria o nascimento na tribo africana até a morte no engenho no Brasil.”

ALGUMAS DICAS PARA OS NOVOS CINEASTAS?
“Sejam PRETENCIOSOS! Não reproduzam o que já foi feito. Surpreendam as pessoas com coisas e idéias novas. Eu sempre crio um desafio pra mim e vou atrás dele conquistá-lo. Fazer uma coisa que não sei fazer. Isso me estimula”.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Entrevista de Luciano Vidigal e Cavi Borges a Jorge Duran


Durante os meses de janeiro e fevereiro, na cidade do Rio de Janeiro. O Cineasta chileno ,radicado no Brasil, Jorge Duran dirigiu o seu terceiro filme "Não se pode viver sem amor"
O filme conta a estória de Gabriel, um garoto de 7 anos, que viaja com a jovem Roseli, 27 anos, para uma grande cidade em busca do pai que o abandonara há muito tempo. Tendo
apenas um endereço como referência, os dois vagam pela cidade, enfrentando perigos, descobrindo um
forte dom de Gabriel e encontrando pessoas que os ajudarão a desvendar o passado.

Durán é considerado um dos grandes roteiristas em atividade no
país. Possui um currículo de clássicos do cinema nacional como “Lúcio Flávio, o passageiro da agônia”
(1977), “Pixote, a lei do mais fraco” (1981), e “O Beijo da Mulher-Aranha” (1985), todos dirigidos por
Hector Babenco; e “Gaijin, caminhos da liberdade” (1979), de Tizuka Yamasaki. Durán também foi coroteirista
de “Nunca fomos tão felizes” (1984); de “Como nascem os anjos” (1996), de Murilo Salles;
e “Jogo Subterrâneo”, de Roberto Gervitz. Como cineasta dirigiu os longas-metragens “A cor de seu
destino” (1986) e “Proibido Proibir” (2006), filme que recebeu diversas premiações internacionais, dentre
as quais os prêmios de melhor filme nos festivais de Biarritz (França) e Viña del Mar (Chile); o prêmio
especial do júri em Havana (Cuba) e o de melhor direção em Valdívia (Chile).


O elenco do filme é composto por atores conhecidos do grande público. Angelo Antonio, de DOIS FILHOS DE FRANCISCO’, Cauã Reymond, da novela ‘A FAVORITA da TV GLOBO, Simone Spoladore, de ‘LAVOURA ARCAICA’ e O ANO QUE MEUS PAIS SAIRAM
DE FÉRIAS’, Maria Ribeiro, de ‘TROPA DE ELITE’ . Fabiula Nascimento do filme ‘ESTÔMAGO’ e o recentemente premiado, no Festival do Rio 2007, Babu Santana .

Eu tive o privilégio de fazer parte da equipe do filme como peparador de elenco. Aproveitei a deixa e convidei o amigo Cavi Borges para um bate um papo com o cineasta Jorge Duran.



Duran! Eu e o Cavi queremos começar nosso bate papo sabendo suas palavras sobre seu novo filme "Não se pode viver sem amor".
O tamanho de grandes cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro sempre me impressionou.
O sentimento de anonimato que elas me produzem me agrada e assusta. Faz-me pensar nas
possibilidades infinitas de cruzamentos, em impossíveis encontros, a não ser pelo azar, a sorte, o destino
– aceitemos por um momento que ele existe. Olhando as pessoas nas ruas,
nas imensas avenidas, a
proporção minúscula da gente ao lado dos imensos prédios, um dia pensei quais seriam as chances de
encontrar alguém, de quem não tivéssemos endereço, ou telefone, ou algum conhecido comum.
Concluí que somente um milagre permitiria esse encontro.
Este roteiro fala de gente comum, gente que vemos nas ruas e raramente olhamos mais de uma vez.
Pessoas que carregam dentro de si, como todos nós, o mais profundo dos mistérios: aquele da vida e
da morte. Neste filme quero afirmar que é possível ter esperanças, que é imprescindível não perder a
esperança. Gosto de pensar nas estratégias de sobrevivência que adotamos no dia a dia. Gosto de ver
no cinema dramas de gente comum, exercendo suas estratégias de sobrevivência. Ainda, este roteiro
me permite revelar o Rio de Janeiro que eu vejo, o brasileiro como o vejo.


Como foi a experiência de filmar na cidade do Rio de Janeiro?
Filmar no Rio nunca foi fácil. Principalmente nos últimos anos. A burocracia exige autorizações e acompanhamento da prefeitura para filmar na rua. A insegurança obriga a trabalhar escolhendo cuidadosamente as locações, para evitar pôr em perigo a equipe e o equipamento.
Tem regiões na cidade em que é difícil conseguir apoio ou preços convenientes para alugar locações, provavelmente porque a TV satura a cidade com propostas em dinheiro ou visibilidade que facilita a vida deles, mas a longo prazo dificulta a quem vai filmar para cinema.
A alimentação é cara, embora em geral boa.
Contudo, a cidade é uma grande desconhecida para o publico em geral, que conhece muito bem as zonas turísticas ignorando bairros mais distante, de grande tradição e beleza.
Foi nesses bairros que escolhi as locações para este NÃO SE PODE VIVER SEM AMOR e no PROIBIDO PROIBIR.

O roteiro deste filme foi escrito por você e a Dani Patarra antes do "Proibido Proibir". Por que demorou tanto tempo para ser filmado?

O roteiro nasceu de um argumento meu, desenvolvido pela Dani e eu.
Embora o roteiro ganhou em 1999 o prêmio de melhor roteiro no concurso nacional organizado pela SAV do Minc, foi convidado a participar de um Sundance em São Paulo e outro em Barcelona, foi selecionado para o mercado de projetos de Rotterdam e Mannheim, não despertou interesse no Brasil. O BNDES o rejeitou duas vezes e na PETROBRAS somente passou num segundo concurso, fora outros concursos onde não foi visto com interesse.

Como foi produzir esse filme?
Não foi fácil, porque o orçamento, que deve chegar no fim a R$1.400.000, é pequeno para o tipo de roteiro. Rodar em 5 semanas foi muito difícil e exigiu um trabalho intenso da equipe toda. Nestes casos, você tem que confiar muito na sua intuição do que está acontecendo, porque se para e olha atentamente o resultado de cada tomada, precisaria de duas a três semanas a mais. A equipe foi formada com colegas com muita experiência e jovens profissionais com pouca experiência. Isso, logicamente obriga a filmar mais lentamente. O elenco de atores com experiência aceitou trabalhar muitas horas, cobrando honorários baixos. Atores, como você sabe por experiência, caro Luciano, neste tipo de produção, são sempre muito generosos.
Por que um diretor com seu histórico encontra dificuldades para conseguir dinheiro pra filmar aqui no Brasil?
Acho que tenho alguma dificuldade a mais. Mas me lembro de quantos colegas não fizeram ainda seu primeiro longa, acho que tenho sido bem tratado. Por outro lado, sempre fui visto como um roteirista e isso não deve ter ajudado muito. Nos concursos esqueceram que junto com roteirista, ou antes de me dedicar principalmente a escrever, fui assistente ou diretor assistente, produtor executivo, diretor de produção, aqui e no Chile, em mais de 20 filmes.
Como foi trabalhar com orçamento mínimo?
Já expliquei acima. Mas já me acostumei e vou prestar mais atenção aos roteiros que escrevo para mim, contando antecipadamente, com pouco dinheiro. Acho que posso fazer filmes interessantes se não perder a objetividade: no Brasil, cada vez se concentra mais o dinheiro em produções grandes, que pouco me interessam nos resultados que mostram.
Filmei em digital e penso continuar filmando em digital. É mais barato durante a filmagem e mais caro na finalização. O que mais gostei é das possibilidades de rodar, experimentar com mais liberdade, já que o preço do negativo é constrangedor. Pensei que o Digital mudou minha forma de pensar o que vou rodar, já que posso fazer da filmagem, de cada plano, uma espécie de “ work in progress” permanente. No fim, o que importa é ter um bom conflito, bons atores, temas e idéias. O que me interessa são as pessoas e seus conflitos. E para isso o digital me serve muito bem.
A falta do dinheiro modificou ou influenciou no roteiro e na forma de filmar?

Modificou sim. Normalmente durante a filmagem vou reescrevendo o roteiro, conforme vou vendo nascer o filme dia a dia. Uso o roteiro como um bom guia para não perder o rumo, uma idéia de ritmo e tempo, mas o que me interessa manter vivo é o tema e as idéias. Cuido do elenco nas suas qualidades e dificuldades, o que me obriga a uma constante revisão da ação e diálogos.
Você foi júri do festival do Rio 2008. Percebeu alguma novidade nas produções brasileiras? destacaria algum diretor promissor no cinema brasileiro?
Gosto do trabalho do José Eduardo Belmonte, do Heitor Dhalia, do Claudio Assis, do Lírio Ferreira, do Karim Ainouz e de alguns mais velhos, como o Murilo Salles. Acho o cinema mais dirigido ao publico, que vai procurando uma entretenimento fácil, chato e pouco interessante, mas absolutamente necessário. Acho bom que o publico tenha oportunidade de ver diversos Brasis mostrados pelos cineastas. Mas acho que a política de governo é liquidar o cinema independente, se é que a denominação tem ainda algum significado.

Bia Castro, produtora executiva de cinema,disse que o maior problema dos filmes brasileiros é o roteiro. Você concorda?

Discordo. Tenho longa experiência trabalhando com diretores de diversas gerações. A falta de objetividade de muitos deles, é assustadora. Ultimamente, os Produtores tem acertado mais, mas a quantidade de fracassos que tem produzido ao longo dos anos é significativo. A Bia esquece que nenhum roteirista tem o poder para que o que se escreve seja filmado: essa possibilidade sempre esteve nas mãos dos diretores-produtores ou só dos produtores. Eles que escolhem gastar e filmar do jeito que pensam. E nós que escrevemos mal? Raciocínio esdrúxulo da Bia.

Qual é a sua expectativa para seu novo filme "Não se pode viver sem amor"?

Nenhuma. Se meus amigos gostarem e os amigos dos meus amigos, fico contente (acho que Buñuel tinha toda a razão quando disse essa frase, à qual me associo). Mas se o publico aceitar ele, vou ficar muito feliz. Com o orçamento de filmagem pequeno fiz tudo para fazer um bom filme. Mas para sair nos cinemas, é outra coisa. Por exemplo, PROIBIDO PROIBIR teve R$200.000 para o lançamento, incluindo tudo. Outros filmes, na mesma época estrearam com orçamento varias vezes maior. Alguns tiveram muito sucesso, outros, nem tanto. Mas na hora de fazer a conta, vale igual para quem sai com 12 copias, que o sai com 200, ou mais copias. Ninguém faz a conta de quanto rendeu cada copia: essa caixa preta fica esquecida.